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7 de nov de 2016

Meu amor pela água nasceu assim

Desde pequenos aprendemos a cuidar da água, que chegava em casa desde uma fonte lá no morro, bem longe, talvez uns dois quilômetros. Estive lá na fonte poucas vezes, sempre pra limpar o filtro do cano, tirar uma folha que entupira a entrada.
Espiávamos o morro pra ver se não aparecia algum boi extraviado. Bebíamos na concha da mão aquela água quase gelada, que descia  o morro por canos enterrados e nos servia para tudo. Nunca nos fez mal bebida assim. Em casa passava pelo filtro de cerâmica, aquele de velas, que eu odiava lavar.  

Havia tanques na casinha - que nunca foi chamada de edícula, que horror de nome! Para ter uma ideia, a primeira porta da tal casinha era uma grande gaiola, onde foram criados frangos, galinhas, até coelhos. 

Depois um sanitário. Aí vinha um banheiro bem grandão, com um chuveiro de água fria e um chuveiro de fazenda, daqueles de encher com água aquecida no fogão,de puxar a cordinha pra soltar água. Chuá!!!



Aí vinham os tanques de água.Um de água limpinha, tão limpinha onde lavávamos às vezes as frutas e as cenouras colhidas na horta. A água escorria para outro tanque, onde se enxaguava a roupa, e o terceiro acolhia a primeira lavagem, sempre com sabão em pedra. Essa água escorria para as árvores, quando ficava muito suja. 








(Olha a audácia de desenhar. Era mais ou menos assim.)

Eram caquizeiros, pés de vime, copos de leite, tudo regadinho sem esforço. E lá mais embaixo, depois da taipa de pedras, os pés de milho da vizinha ainda tiravam uma casquinha. Depois, a água já purificada do sabão ecológico, ia pro rio, que nem sempre era tão limpo assim e onde tomávamos banho, quando o verão explodia.

Essa relação com a água tinha um acento de fartura, de um nunca mais acabar. Mas não abusávamos dela. O banho era curto, mesmo quando aquela lata suspensa foi substituída por um chuveiro que aquecia, colocado num banheiro recém construído, grudado na casa. Oh, luxo dos luxos!

Quando crianças, usávamos uma banheirinha de latão, de zinco talvez. A água escoava num ralo, do chão da despensa para debaixo da casa,onde não havia nada, só terra seca, quase inacessível. Então essa água com cheiro de sabonete, de banho de sábado, iria perfumar teias de aranha e espantar algum rato desprevenido. Nos dias de inverno com geada, essa era a opção.

Banho de sábado. Não tinha banho todos os dias, imagina! Justamente porque o chuveiro ficava fora da casa, ou, quem sabe, se lavar os pés, o rosto e a bunda fosse suficiente. Mas no sábado era uma esfrega geral. Sem esquecer atrás da orelha, hein!

Esse ritual vinha antes das aulas de catecismo. Na volta delas a vida voltava ao normal: trocar de roupa,subir em árvore, ler algum livrinho, brincar de casinha ou boneca.(

Aí as pessoas se vão pela vida e só tem água com cheiro de cloro ou numa garrafa. Beber da fonte, na concha da mão, nem pensar! 

Um dia desses comentando sobre o assunto com uma de minhas irmãs ela acrescentou: Lembra como era nosso cabelo com aquela água?

E eu emendo: E a água cristalina, que a gente tomava das valetas da estrada, quando ia caminhar com a turminha e dizia que era pura se tivesse passado por sete pedras? De onde saía isso? Por que ninguém ficava doente?

Suspiro...
Suspiro...Suspiro...