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21 de out de 2016

Adeus, querido Lenzi!

Uma das pessoas de mente mais aguda e perspicaz. Culto e inteligente. Sério e debochado. Uma pessoa que acompanhava meu pensamento e se antecipava a ele. Um dos poucos que me desafiava: “Melhore o argumento!” “Ainda não me convenceu.” “Continue...continue.”

Qualquer assunto poderia ser abordado, inclusive os extremamente pessoais e dolorosos. Quase acadêmicas as discussões. Se ficassem muito intensas parávamos quase ao mesmo tempo, trocávamos um olhar e o assunto mudava. Vinha a música, o teatro, a literatura.

O lado profissional ou famoso dele só era abordado quando algum caso o incomodava, se obtinha algum sucesso trabalhoso, e quando a nomeação almejada na área da Justiça chegou.

Ficávamos em qualquer mesa de bar ou restaurante e a conversa se desenrolava sem ponteiros. Se batia a fome pelo adiantado da hora, pedíamos qualquer coisa e a conversa seguia solta e sem fim, até que um dos dois lembrasse do relógio. Um abraço generoso, um beijo e a vida seguia até o próximo chamado ou encontro ao acaso.

Se topasse comigo na praia, interrompia a caminhada e chamava uma água de coco ou cervejinha. ”Enchendo os olhos na praia, lageano?” Ele fingia uma zanga divertida: ”Só tenho olhos pra ti, italiana difícil!” E ria, debochado.

Sua cretina!, você dizia com um sorriso, quando eu, maliciosamente, desviava uma discussão, fugia dos galanteios de conquistador, ou ganhava de seus argumentos. Eu devolvia: Não seja canalha!

Quando se via sem saída arranjava um palavrão sem censura. Ou gargalhava, talvez para se contradizer e me surpreender.

Existia uma paixão no ar, mas não havia chance de deixar que progredisse. Nosso melhor lado era a amizade. Até aquele dia que nos descuidamos, brigamos feio por um motivo idiota e nos afastamos. Para sempre, agora eu sei.

Ontem descobri, quase por acaso, que você morreu há dois anos. Como você fez isso comigo, italiano? Ir sem aviso, sem outro encontro?

Eu olhei para o computador e não sabia se chorava ou chamava você de tratante.

Como você saiu de uma discussão que extrapolou nosso acordo e ficou tanto tempo inacessível, sem me dar a chance de gargalhar sobre essa tolice como fizemos tantas vezes?

Que jeito de zerar o placar, lageano! Que surpresa sem graça! Que dor! Que dor! Que dor!

Por que eu sempre achei que um dia nos sentaríamos outra vez para falar de tudo e nada? Por que eu continuei afastada, pensando em você como um dos meus melhores amigos e achando que você era eterno? 

Porque você é.

Um comentário:

Justine disse...

Texto pungente, contudo seco, divertido, despojado. E triste, triste, e belo, belo!