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2 de set de 2016

Darcy, meu Eros sem Tanatos


Confesso sem receio: Eu tinha uma queda por esse cara. Nada erótico, nada hormonal. Aquele jeitinho dele de olhar e, principalmente, o sorriso maroto, o mastigadinho apressado da fala me paralisavam em frente à televisão, enquanto ele desfiava sua cultura e paixão por tudo. Vi e ouvi todas as entrevistas que pude. Revi muitas. Não disse que tinha uma queda? Era uma queda e tanto! Não acompanhei a carreira política, exílio, etc, nem nada, não é uma avaliação de seu desempenho isto aqui. 
Eu sabia de seu envolvimento e amor sem medida pelo povo como uma unidade, sem patriotada, e pelos índios E pelas mulheres!
Era um namorador, conquistador incorrigível, apaixonado pelo corpo e alma das mulheres. Ai de mim se eu o tivesse conhecido ou convivido com ele. Seria um voo sem volta. Ele era um apaixonado também pelo amor, pela sensualidade, pela vida.
Tive a enorme, a indescritível sorte de comprar Casa Grande e Senzala(40ª edição da Record) prefaciada por ele. Já li e reli incontáveis vezes aquela enormidade de prefácio. São páginas e páginas de pura sedução, cultura, lirismo, humor e paixão. Quase nem li o livro, tamanha a capacidade de Darcy de cativar com um assunto que poderia ser tão árido como a composição e características de todos os tipos da raça brasileira, seus encantos e mazelas.Quem tiver a oportunidade leia. Só o prefácio dele já vale o livro.
Há uma frase que ele reproduziu em uma entrevista, de uma história de um índio, que me emociona. Haviam morrido a mulher desse índio e seu filho. Contava Darcy que o amor que tinham era tanto, que o índio simplesmente deitou na rede "e se morreu".
Apagou de amor. "Ele se morreu" é diferente de "ele se matou" ou "ele se suicidou". Que frase!
Instigada por um texto escrito  no Facebook sobre o amor, retornei a um livro que devorei aos prantos quando ele morreu: Eros e Tanatos.
Ele queria, implorava em poesia para viver mais e escancarou o que tinha para negociar por mais e mais e mostrou as razões do pedido, contou das mulheres que amou, por quem se apaixonou, com quem apenas esbanjou sensualidade.
Segue a introdução a uma das partes do livro(página 62), onde ele começa a mostrar a paixão pelo feminino e grita por mais tempo. O Eros.
"Amar é meu modo de viver. No amor floresço.Sem amor, murcho. Falo do amor inteiro, carnal e sentimental. Há o só carnal. Tesões ferozes que às vezes nem se concretizam nunca, mas ai ficam, cultivadas no peito, no sexo, contaminando as confluências amorosas e as circunstanciais. Há, também, o outro, o só espiritual. Anjo sem asas se arrastando, saltitante. É, às vezes, o triste destino do amor exaurido, se convertendo em amizade fraternal, digno. Digníssimo até, mas insípido. Insipidíssimo. Deus me livre e guarde,(Darcy Ribeiiro, Migo,1988)"
Que saudade de você, Darcy das paixões todas!

5 comentários:

Justine disse...

Vou tentar encontrar esse prefácio de "Casa grande e Senzala", mas duvido...
Terei pena, pois despertaste a minha curiosidade por esse escrito de um grande brasileiro.

Clarice disse...

Justine, sou suspeita para analisar Darcy, tamanha sua erudição, mas do que li, impressiona esse prefácio, Migo e Eros e Tanatos. Se você não conseguir o livro, comunique. Segue mensagem por e-mail a respeito.Abraço

São disse...

Para minha vergonha, tenho de confessar que desconhecia...pelo menos o nome, porque sou incapaz de fixar nomes.

Os livros referidos li há muitossss anos

Beijinhos e bom resto de semana

Dalva M. Ferreira disse...

Estou lendo O Povo Brasileiro, de queixo caído. Um orgulho!

Clarice disse...

Não tinha como não cair de amores pelo homem e muito mais pelo escritor e estudioso, não é? Li esse há tanto tempo! Vou procurar por aí.