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28 de mai de 2013

Dia de Visita

Ontem fui ver minha mãe no hospital.

Algumas horas com ela e suas fragilidades e saí de lá feliz ao perceber, que apesar ou por causa de tudo, ainda sobrou um coração macio em mim.


24 de mai de 2013

Sem perder o jeito

A sanidade depende de como consigamos colocar um pouco de tempero certo nessa bagunça.

Vai daí que colhi e repasso adaptada uma joia de um episódio da Escolinha do Professor Raimundo que é sempre atemporal, razão de sua genialidade. 

Para que os estrangeiros entendam, seu criador nada mais é do que o mais genial humorista e criador de tipos brasileiro, se não for o melhor do mundo,

Diz a Catifunda que a polícia é uma banana e a justiça um mamão. Como?, diz o professor espantado.

E Catifunda explica:

-A polícia prende. A justiça solta!

Para quem não acreditar é só ver os noticiários. De qualquer ano, inclusive desta semana.

22 de mai de 2013

Navegar é preciso


O que dizer a quem abre os braços e oferece conforto? Sei que é difícil para quem lê, porque traz lembranças de todos os tipos.
De qualquer maneira, mesmo assim pela tela, eu me sinto cercada de solidariedade. Obrigada.

Em meio a decisões, reunião,visita e tempo de aceitar, reconheço que ainda não consegui deixar de lado sentimentos, mas mesmo que tenham sido de mágoa, nunca foram de ódio ou ingratidão. Apenas não me sinto assim tão filha nem irmã, como poderia ser.

Tudo a seu tempo. Ela vai aprender a viver, como tenho feito, um dia de cada vez, até a chama apagar.

Amanhã sairá do hospital e irá para a casa da irmã, que decidiu e assumiu o comando, seja lá o que isso tenha sido e será.

De minha parte, se alguém ainda estiver perto de mim e se eu chegar a essa idade, ninguém me colocará numa mesa de cirurgia. Saio de bengala na mão e acerto seja quem for.  

De tudo uma lição. De tudo a confirmação de que sempre e em qualquer ocasião estamos sós. Seja para decidir ou para aceitar.

Tenho me perguntado por que católicos, que repetem"seja feita a vossa vontade..." e acreditam em vida eterna tem tanto medo de morrer.

A vida fica mais intensa quando colocamos o fim em perspectiva e deixamos tudo em ordem.

Um abraço de gratidão a vocês e vamos em frente, cada um com seus motivos para se manter em pé.

16 de mai de 2013

Hora da verdade

Minha mãe vai morrer

Há uns dois meses coisas demais começaram a acontecer ao meu redor, enquanto meu corpo acusa o tempo e me castiga e transformaram minha mente numa sala de terapia. Balões de pensamentos insistentes ficam zoando, criando e trazendo memórias. Algumas boas outras cruéis. Muito cruéis.

Lembranças de ser obrigada a ir à igreja, de Natais, que salvaram muitos dias de minha infância. Da liberdade de brincar na rua, de jogar, de ter espaço e de permitir que outras pessoas nos dessem a atenção que ela não via como importante.

Importante era ter livros e ir ao catecismo.(Os livros salvaram minha vida e me ensinaram a sonhar e conquistar. O catecismo me declarou burra.)

Questionei, insistentemente, o quanto há de verdade, nisso de amar sem medidas uma mãe que nos colocava em fila e encarregava um dos filhos de buscar uma vara, com a qual nos batia mordendo os lábios, com força, com raiva, pelas travessuras infantis que fazíamos enquanto ela estava numa escola ensinando. Outras vezes era o chinelo, o cinto, a palma da mão, que, certeira, encontrava o rosto como resposta a uma pergunta inocente.

Questionei em madrugadas insones a falta de demonstrações de carinho. Não nos ensinou a sermos irmãos cúmplices, mas competidores.Nunca um elogio, nunca um abraço de chegada depois de meses de ausência. Nunca o desejo de boa viagem quando ia embora outra vez. Nunca um estímulo. Com muita sorte a mão no ombro no aniversário e um lembrete ao pai distraído. Lembro dos três presentes de aniversário que ganhei antes de sair de casa: uma anágua, uma caixa de sabonetes(que foram usados por ela) e uma sombrinha. Enquanto as caras linhas de bordar se multiplicavam na cesta.

Dar de comer, vestir e mandar para a escola teria sido suficiente. Se não fosse a necessidade de cobrar a vida que nos havia sido dada. Nessa cobrança a humilhação, a negação, o afastamento. Uma gravidez inteira sem uma carta, um telefonema, uma visita nas dezenas de vezes que fui hospitalizada. Porque eu havia rompido uma regra social idiota.

Passei semanas rememorando, selecionado para privilegiar bons momentos. Para justificar esse amor obrigatório. Não foi fácil. Um terapeuta ficaria maluco tentando remover as pedras que coloquei em redor do coração para reduzir as dores, as mágoas, as carências resolvidas em outros braços. 

Acordar no meio da noite e pensar que foi bom ter alguém para me dar um remedinho quando eu tive febre, lavar minha roupa, prover a comida, o estudo. Rapidinho vinha o contraponto da dor de ver a porta fechada tarde da noite, de castigo, no escuro, morrendo de medo, esperando o pai chegar pra contar que eu havia feito alguma travessura. 

Tudo era motivo de castigo. Centenas de linhas escritas: "Não vou mais desobedecer a mãe". A mão pequena e cansada secava as lágrimas. A outra cerrava o punho.


História Recente

Quando começou essa maratona para investigar o que significava uma manchinha no pâncreas de minha mãe, eu fui contra o estresse de correr atrás de exames, viagem a São Paulo, mais exames, médicos, médicos e médicos, viagens e mais viagens, mais estresse ao telefone, médicos, confronto de opiniões, brigas entre irmãos e por aí vai.

Com mais de 80 anos, se a descoberta ainda não cobrou seu preço, deixa quieto! Insisti e insisti, mas fui voto vencido. A velhinha foi jogada(literalmente até contra um poste por um incauto taxista), de um lado para outro e ela reclamava ao telefone:-Ah! O que tiver que acontecer, será!

Não contei a ela que depois de seis anestesias gerais aprendi que ao contar 10,9,8,...já era! Entra a escuridão e só se descobre que o dia é claro se a coisa for bem sucedida. 

A maioria venceu e hoje ela foi para a cirurgia, que revelou que o cansaço, a discussão, o estresse por conta de fazer ou não um exame apurado foi - permitam-me, por favor- uma bela merda! Abriram e fecharam a pele branca, intocada, murcha e delicada pela passagem dos anos.Apenas deixaram uma cicatriz. Não há o que fazer. O pontinho na verdade se revelou um órgão invadido e sem alternativas.

Ela tem, no máximo, dois meses para, quem sabe, sentir que a vida se vai aos poucos, ou alguma piedade do universo que a poupe de muita dor.

Ela é um ser humano e já perdoei muitas coisas, com certeza. Não me agrada ver ninguém sofrendo, principalmente quem me trouxe ao mundo, mas como negar que estou  num turbilhão por conta de lembranças tão contraditórias e fortes? A teoria me cobra amor incondicional. Eu não posso ser hipócrita. Nunca fomos amigas, nem cúmplices, nem  próximas, nem confidentes. Nunca conseguimos conversar como mãe e filha. Nunca. 

Lembro com frequência, que enquanto velávamos nosso pai em 2001, ela se aproximou com lágrimas nos olhos, colocou a mão no meu braço e me pediu perdão por ele numa frase inacabada :" Se teve alguma coisa que...". 

É uma desgraça ter uma memória privilegiada, fotográfica, como a minha.

E no final dos finais, como aconteceu quando meu pai morreu, caberá à filha renegada providenciar o descanso final e tudo o que cerca essa etapa.

Eu me sinto órfã, não é de agora, mas pensava ter mais algum tempo para perdoar tantas lembranças. 

Eu precisava colocar isso pra fora. Sim, publicamente, pra levantar algumas pedras.

13 de mai de 2013

Coisinhas que aconteceram por aqui

Enquanto eu tratava das exéquias de meu velho desktop, o mundo não parou.

A hortinha continua a ser um retrato de minha esperança.

Repare no pé de vagem blauhilde. Roxas quando colhidas e verdinhas quando cozinham. 

As flores da vagem pretzel enchem os olhos.


Descobri uma trepadeira que resiste aos ventos.

De vez em quando uma lua me surpreende
e a segunda-feira me espia antes das sete horas, com esse visual.
Como querer que o mundo pare?

Boa semana!