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28 de jan de 2010

A Verdade incomoda

Há poucos dias alguém que está lá prestando serviço, declarou que, por ironia, foram a miséria, a fome e a imundície que fizeram os haitianos tão resistentes, razão pela qual subsistem mais que o esperado em meio aos escombros.

O artigo a seguir foi escrito em 2004. É estarrecedor chegar tão perto dessas verdades, mas fica fácil entender porque eles merecem que a eles tudo se dê e nada mais se cobre. Não deixe que a extensão do texto o afaste.


Para quem gostaria de saber mais sobre o HAITI:

A maldição branca


 Eduardo Galeano


No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; não pelo aniversário da liberdade universal, mas porque ali se desatou um banho de sangue que acabou derrubando o presidente Aristide.


O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.


Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a
escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.


O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos
ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.


Da maldição branca não se falou. A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:


- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?


- O anterior.


- Pois, que seja restabelecido.


E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos. Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro.

O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve a redenção final. Nessa época, o Haiti já pertencia aos bancos dos Estados Unidos.

Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.


Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854. Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.

O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.


E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.


A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo. E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos.

Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.


Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal. Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.


Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.


Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.


Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.


O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.
(IPS/Envolverde)


Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de "As Veias Abertas da América Latina" e "Memórias do Fogo"

25 de jan de 2010

De Mim para Mim mesma

Desde que eu decidi que mereço algo de que eu goste*, escolho um presente, quando fecho mais um quilômetro e- viva a cacofonia!- e dou-o a mim. "Dou-mo" ficaria ainda pior.

Neste ano, olha o que eu ganhei de mim mesma e será entregue até o final de semana!

Uma coisa que estica e encolhe. Do jeito que eu gosto. Um pequeno que fica grande. Andava tão precisada!

*Pois é, este ano o CD que chegou é da Dalva de Oliveira. Santas velharias! O cara quer mesmo me debulhar em lágrimas?

22 de jan de 2010

É de graça!

 O site coloca livros grátis na telinha de seu computador. E não é aquela coletânea de clássicos nada atrativos. Literatura mundial mais recente e bem interessante.

Pena que sejam só em língua estrangeira(inglês, espanhol, alemão), mas para quem vai além da língua portuguesa ou aceita desafios...

De graça até injeção na testa!

20 de jan de 2010

Anda, menino!

Quem nunca disse isso para o filho/filha que se aprontava para ir à escola?

 Coitadinho deste menino!

W. Henrique, que enviou a dica, valeu!

8 de jan de 2010

Barbeira é a mulher do barbeiro!

Já dirigi em estradas de chão e barro, com correntes que eu mesma coloquei; tirei carro afundado na areia para uma incauta motorista; já vi barro de quase meio metro de altura no pneu. Tinha que botar uma primeira ou segunda no pé do morro e sentar a pua para não parar no caminho, torcendo pra que ninguém estivesse descendo ou parado na trilha.

Já rodei em estradinhas que pareciam tobogã: mal terminava um buraco vinha outro.


Andei pelas estradas de sabão do Paraná, comendo barro(muito parecido com esse da foto). Tinha que dirigir com a cabeça fora da janela, que o limpador do parabrisas não dava conta do que o carro da frente jogava e não podia parar nem frear ou era barranco e guincho na certa.

Comi muita poeira vermelha atrás de caminhões. Dirigi à noite na serra, a 20km por hora, com neblina, vendo só uns 5 metros adiante. Atravessei rios cheios a pé(Xaxim, conhece?) com uma vara medindo a profundidade, para depois passar com o carro(à noite, detalhe importante).

Salvei a vida de um cara(ou deixei de matá-lo) porque acelerei em vez de frear.

Coloquei o carro sobre a balsa e atravessei o Rio Uruguai(onde hoje há uma represa) com cheia de mais de 3 metros.

Muitas serras e curvas pelos meus caminhos. Sempre de batom e muito feminina, alto lá!

Ainda não dirigi ônibus e caminhão. Nem pretendo. Mas no volante de carros já fiz coisas que deixariam alguns marmanjos de calças borradas.


Quem já fez o trecho Palmas(PR) até Seara(SC), ou de Erexim(RS) até Seara, quando não havia um metro de asfalto, em noite ou dia de chuva, sabe do que eu falo. 

Quem foi à praia de Itapoá há mais de dez anos, dirigindo um Fiat 147?

Então eu acho muita graça quando olham para mim com cara de "mais-uma-mulher-no-volante". Nem respondo. Não preciso. Se bobear eu chamo para um desafio de estrada de chão.

Desde que eu não esteja com um puta torcicolo como o de hoje.

E que não seja pra fazer baliza(grrrrrr).

A foto veio daqui.

5 de jan de 2010

Bombando nos acessos

Uma empresa de telefonia móvel inglesa promoveu essa mobilização na Trafalgar Square, em Londres, reunindo mais de 13 mil pessoas.  Sem contar as que espiaram de longe.


A empresa simplesmente mandou um convite pelo celular a todos seus clientes dizendo: "esteja na Trafalgar Square tal dia, em tal horário". E nada mais foi dito.

Os que foram acharam que iam dançar, como tem acontecido em outras mobilizações desse tipo. Mas, na hora, distribuíram microfones, muitos, muitos, e muitos mesmo, e fizeram um karaokê gigante, de surpresa!!!E todo mundo que estava na praça, e os que estavam por ali e que nem sabiam do convite, se juntaram e cantarem juntos.

Resultou nesse vídeo arrepiante. A primeira vez que se assiste, dá nó na garganta. Depois a gente vai reparando na idade, nas nacionalidades, nos mais diferentes tipos. Quem se importou com estrangeiros ou não, raças, religiões e trajes diferentes diferentes, com idiomas diversos?
 
Dá o que pensar. Ou será que comecei o ano mais pra filósofa do que pra blogueira?